Reflexões sobre uma economia industrial em um mundo caótico

Em meio a inúmeros alertas da ONU e enfrentando uma pandemia que cobrou da humanidade a capacidade de parar o giro do sistema para se recompor, o sistema global permaneceu tentando remendar a si mesmo. Passando-se dois anos de pandemia, a escolha dos grandes operadores dos modos de produção foi por manter a roda da economia como conhecemos em pleno movimento, apesar de todas as limitações e embaçamentos que podem causar catástrofes ainda maiores. Assumimos esta escolha política, mesmo distante das inúmeras disputas.

Estamos, enquanto espécie, diante de um flanco. Enfrentamos uma necessidade urgente de ruptura do paradigma atual que, diferente dos processos de mudança do iluminismo ou do modernismo, não passa por signos de busca de evolução da humanidade, mas sim pela própria necessidade de sobrevivência dela. Assim, nos resta a certeza de que não temos mais tempo de experimentações sem encarar os riscos de para onde a trajetória econômica está nos levando. Diante disso fica a pergunta: Como repactuar a economia global diante do dilema ambiental? Essa pergunta precisa de uma resposta aplicada em larga escala urgentemente.

Dentro deste dilema trago um recorte para reflexão: Os atuais avanços do mundo industrial já nos permitem gerar novos modelos que podem colaborar com a busca deste novo paradigma. O discurso vigente do sistema capitalista, que centra a produção em lucro, competitividade e propriedade do conhecimento (patentes, copyright, P&D) como fomentadores de uma sociedade mais eficiente já não cabe mais. Foi justamente dentro deste raciocínio que chegamos aonde estamos. Tentamos sobreviver em um planeta que transforma vida em recurso e tudo que toda em produto de consumo.

Por outro lado, o sistema vigente em modelos de produção socialista produzira um nicho de relações burocráticas que tornaram a indústria menos potente em inovação (argumento que é questionável), hoje, com o atual nível de conexão de redes, não precisamos mais nos ater a tal debate. Vamos recortar o que é comum a ambos, a busca da produção e o uso estratégico do modelo industrial para garantir o controle social. Por sua vez, não é mais necessária uma megaprodução de excedentes para otimizar lucros, ou um grande sistema de exploração de força de trabalho braçal para garantir eficiência (como defendiam/defendem alguns).

Podemos criar redes de automação capazes de inferir na produção dentro de melhor racionalidade de demanda, interesse, uso, capacidade produtiva e capacidade destrutiva. Podemos integrar todos os instrumentos de produção e logística globais em redes de possibilidades capazes de monitorar em tempo real a necessidade de produção, reduzir custos, reduzir desperdícios e excedentes que viram lixo. Com o Big DATA podemos tornar os ecossistemas de produção industrial mais flexíveis e ajustados a demandas globais.

Um exemplo alegórico: O aumento expressivo do consumo de um determinado remédio destinado a uma doença contagiosa em uma cidade pode dar indícios de um possível surto, apontar para a rede industrial a necessidade de se produzir mais deste remédio para esta cidade ou deslocar de um lugar com pouca necessidade deste remédio. Esta indústria pode dar indícios a rede de indústrias de motores sobre a necessidade de produzir certo tipo de transporte para garantir a logística de mobilidade para aquela região e por aí vai. Uma reação em cadeia que ligue ponta a ponta: consumo e produção conforme diagnóstico em tempo real das problemáticas e potencialidades de atendimento das demandas.

Cada vez mais, o ato de implementar uma indústria envolve também pensar nas relações urbanas, paisagísticas, naturais de onde esta se insere. O modus operandi de um planeta rateado pelos setores econômicos que garantem a eterna repetição dos mesmos ciclos de centro-periferia global. Da mesma forma devemos pensar se ainda se torna necessário investir energia na produção constante de veículos automotores individuais por exemplo.

Precisamos rever urgentemente a relação do lucro e propriedade relacionados a produção industrial. Não cabe mais, em um mundo complexo, pensar o grande campo industrial como um sistema de proprietários de capital e relações de poder e disputas privadas. Não cabe mais a produção seguir com base em excedentes de necessidade duvidosa para girar uma economia desvinculada dos impactos ambientais e das reais demandas da sociedade. Com um olhar atento sobre a produção globalizada e internacionalizada seríamos capazes de economizar tempo e material, baratear a produção a partir da logística de produtos sob demanda, ao invés de repetir o padrão de barateamento gerado por uma megaprodução de excedentes.

Podemos portanto, reinserir a produção dentro de um sistema ampliado de organização social. Atualmente podemos gerir complexos industriais através de bigDATA de forma a garantir maior eficiência nos processos. Porém, precisamos de um ciclo ampliado constante de gestão política e governança, que englobe sociedade civil, sindicatos, ambientes comunitários, parlamento, entre outros.

É preciso pensar uma estrutura social que viabilize a redução da jornada de trabalho sem a redução dos salários. Precisamos considerar as ferramentas que o capital apresenta, podemos por exemplo redefinir a produção do lucro do capital financeiro, cujo principal alvo é a geração de renda e crédito através da confiança. O lucro segue como conhecemos, sendo produzido pela capacidade produtiva dos trabalhadores e pelas máquinas de exploração da vida, porém se compõe via capital financeiro, de forma indireta a isso. É preciso repactuar a renda, pois a realidade é que teremos uma massa de desempregados ou de subempregados muito maior do que a que existe hoje. Esta massa por sua vez é parte significativa na produção da mais valia, ao mesmo tempo em que é potencial consumidor.

O sistema de lucros deve ser reorganizado e costurado. Ao invés da produção de bilionários, a industrialização global, automatizada e gerida de forma racional pode produzir um sistema universal de redução e mitigação da miséria. Para tal, precisamos reinvestir o lucro gerado em políticas de renovação e proteção social e ambiental. O valor excedente produzido precisa entrar em um ciclo de benefícios locais, ser reinvestido prioritariamente na busca da equidade social em todas as esferas de governança.  Visamos com isso reduzir os danos causados e prevenir que novos danos ocorram. Com o investimento global dos lucros industriais organizados, podemos estruturar bancos de apoio e distribuição da renda, programar e fomentar políticas de pesquisa e desenvolvimento que se fundamentem prioritariamente na constante ação em rede.

Pesquisa e desenvolvimento é um trabalho global e colaborativo. É um equívoco seguirmos crendo ainda nos modelos míticos da grande genialidade. Precisamos Consolidar as redes de possibilidades dos encontros. Quanto mais integrados estamos, melhor é a eficiência e racionalidade de ações que planejamos.

O que deve se tornar predominante e paradigmático acima do lucro, é o impacto de preservação e recuperação ambiental do entorno, seja natural ou construído. Neste sentido, a partilha pode ser peça importante para organizar o novo modelo de operação industrial, focando na cooperação internacional, na racionalização da logística de transporte dos bens de consumo e de transporte das matérias primas muito mais que na concorrência. O planeta não suporta mais nossa organização social modernista, essa é a triste realidade, precisamos urgentemente mudar as rodas de funcionamento do planeta, o tempo é pouco.

O mundo é propício a receber qualquer pequeno impacto no ecossistema e vai nos cobrar. Já demos alguns passos culturalmente.  Aumenta o número de cidadãos, para quem, a existência passa pela experiência do mundo e não mais pelo controle de posses. Precisamos reforçar estes modelos se quisermos seguir vivendo neste planeta.


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