Reflexão sobre o processo de refração dos coletivos e identidades

É possível pensarmos que as formas de organização coletivas que se tornaram um modelo padrão nas últimas décadas esteja chegando em um momento de refração.

Já é notável que, de alguns anos para cá este modelo foi perdendo sua autonomia como forma de resistência e sendo capturado pelo sistema do capital, seja pela ferramenta de fomentos financeiros, seja pela atração do trabalho para dentro do modelo de mercado, os coletivos foram ganhando cada vez mais um tom de pequenas e micro-empresas (mesmo sem ser). Esta queda, que acabou por criar relações de competição entre grupos, e afastamento de muitos que buscavam nestes uma linha de fuga, ajudou a desmobilizar possíveis redes com capilaridade e capacidade de produzir outras formas de vivência, de distribuição de força de trabalho, de fazer política.

Além deste, a organização em coletivos que se encontra capturada pelo sistema de poder, acaba por viver em si mesma, presa na necessidade da própria sobrevivência, como quaisquer brasileiros que não tem capital ou herança. Mas a questão dada é: o que fazer diante disso?

Se não se consegue mais retirar os coletivos e similares do sistema, pois os mesmos precisam dos parcos recursos fornecidos pelo sistema, e ao mesmo tempo não podemos mais contestar este sistema pelo risco de ser isolado do acesso aos parcos recursos, fica a questão: Como retomar caminhos de mobilização para além deste?

Da mesma forma caminha a questão das lutas identitárias. Não é nas pautas que caminha o problema, mas na forma como muitos grupos acabaram caindo no controle deste mesmo capital, que por necessidade de recursos pra sobreviver, caíram no fluxo tradicional e não conseguem mais ter força para traçar um contrafluxo ou uma saída alternativa ao mesmo.

Cada vez mais entendo que devamos disputar a sociedade orgânica, aquela que não está organizada mas é capaz de construir sua sobrevivência apesar da escassez. Esta sociedade não precisa se entender por uma identidade necessariamente, mas muitas das vezes por uma enunciação coletiva. Num dado momento vizinhos que se odeiam podem construir um laço tático de saída de um confronto maior. Vizinhos que nunca se falam não precisam deixar um ao outro passar fome, essa é a questão.

Entendo que esta disputa também não se dará por círculos de coletivos organizados, mas por entendermos o modelo de funcionamento social dos mais pobres ao mesmo tempo em que estruturamos uma saída social e econômica de massa, um projeto amplo de emancipação nacional.

Hoje as alas mais progressistas seguem perdidas em si mesmas, transformou-se o Ser de Esquerda em uma identidade que representa tudo aquilo que é bom. Uma leitura essencialista que nem o Marx em sua fase filosófica (como um dos filósofos da suspeita) ou os existencialistas e percursores das teorias em torno das minorias e identidades pensariam. Possivelmente um Marx em 2022 estaria escrevendo altas críticas a este bloco e se dedicando a ler os principais pensadores sociais e econômicos dos mais diversos campos e lidas.

Precisamos antes de mais nada aceitar quem somos: um país complexo, com pouco estudo, cuja base política se funda a partir das forças militares e oligárquicas, de bases religiosas fortes e cujo progressismo e conservadorismo disputam intensamente uma classe média. Boa parte da nossa esquerda nunca leu Marx a fundo e boa parte da nossa direita também nunca leu seus autores de fundação e citação a fundo. O que temos em maior força parece sempre ser o senso comum. Enquanto isso os mais pobres lutam por sua sobrevivência e buscam o acalanto nas mais diversas formas de expressão e espaços que sobram (sejam igrejas, botequins, rodas de vizinho, etc).

Pensar este tipo de projeto no Brasil é um enfrentamento difícil e delicado, visto nossa política ser tradicionalmente um campo de projetos de curta distância e tábulas rasas sobre projetos passados. O Brasil, enquanto país das dimensões e complexidades que tem, não pode se dar ao luxo de viver rateado por meia dúzia de famílias e eminencias pardas do poder cuja linhagem pode ser traçada desde sua origem.

É por esta complexidade que precisamos pesar nosso caminho. Que projeto de Brasil queremos e precisamos? Não bastará dizer aos céus: Somos a Esquerda, somos o lado certo da história! Todos aqueles que no Rio de Janeiro por exemplo viram as remoções para as obras olímpicas e da copa das copas, todos que viram sua casa cair com a pichação SMH tocada pelo maior partido de esquerda do país a época, não considerarão este o lado bom da história. O teleférico parado do Alemão é uma obra dessa esquerda que está sempre no lado bom da história, e quem está fora da bolha sabe que boa parte da recessão do país vem daí.

O Brasil quer uma saída disso e nisso, é preciso entender que muitos dos que votaram em Bolsonaro em 2018 sabiam o que era o Bolsonaro e aceitaram o risco social. Foi uma escolha também do povo, este mesmo povo que só se ferra na história e que várias vezes é taxado por memes como culpado. Não foi culpa, foi desespero, desespero de inúmeras pessoas que aceitavam qualquer coisa por alguma mudança. A burrice desta esquerda que ama desesperadamente os espaços de poder é que, no auge de sua arrogância segue sendo a melhor das opções sem sequer sentar com este povo para traçar um caminho comum e popular, segue apregoada entre os seus na busca do caminho certo da história sem construir uma alternativa a si mesma que não seja o retorno ao passado.

Porém diante disso fica a pergunta de Nietsche: “Você viveria sua vida mais uma vez e outra, e assim eternamente?” ao qual, a maioria dos brasileiros, cansados e exaustos do peso da vida, do peso da pobreza e das dores nas articulações dificilmente responderiam um sim. Como seremos capazes de construir um país que nunca foi construído? com acesso a educação de base universal e de qualidade a todos os brasileiros, quando veremos um arranjo político capaz de produzir um planejamento viável de se executar para os próximos 10 ou 20 anos? sob quais ferramentas seremos capazes de reconstruir o Estado a ponto de dar os direitos básicos da existência da vida aos mais pobres?

Da mesma forma, quando vamos ser capazes de aprender com os mais pobres que as lutas da vida não cabem nas caixinhas pré-formuladas que tanto travaram os coletivos e muitos grupamentos que tentam lutar por um mundo melhor?

Cada vez mais creio que os novos caminhos passarão por isso: Um projeto nacional viável, somado a capacidade de compreender e estarmos junto nas redes mais orgânicas da sociedade. Só por aí seremos capazes de combater o niilismo político em que estamos e o cansaço na busca da construção de novos valores éticos que sejam capazes de repactuar nossa sociedade. Não é simples, e não há saída concreta seja pelo retorno ao passado onírico ou expectativa de um futuro que nunca vem. A saída estará na capacidade de trazermos resposta coerente para resolver este presente material em que estamos assentados.

criança de bicicleta em via expressa do BRT

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