Redes de trabalho vivo dinamizam as lutas pela saúde coletiva nas cidades

#coronanasfavelas Maré Vive


É por certo que as cidades vão mudar. Muito provavelmente a vida pós pandemia nos trará novos hábitos. Isso é tão possível quanto todas as incertezas que isso significa. 


Há mudanças significativas acontecendo e que podem impactar em novo paradigma nas formas de trabalho. Se até pouco tempo atrás a lógica corporativa dominava as mentes no que se refere a trabalho: seja um profissional x ou y, hoje o que vemos são múltiplos fazeres em torno de uma luta comum. 

As disputas anteriores discursavam entre o profissional de certa categoria que representa um todo (ex: arquiteto que sozinho resolve todos os problemas da cidade), ou a flexibilidade e diluição (ex: arquiteto que vira motorista de uber). Creio que o que estamos vivendo está em outra via, onde o saber deste não está acima ou subjugado, mas sim integrado a diversos outros saberes. O trabalho coletivo, integrado e em sistema é o modelo que estamos experimentando neste momento. 

Não são os médicos enquanto categoria única, mas a sociedade como um todo que está unificando as pontas do sistema de saúde coletiva. Não está no hospital o tratamento contra o COVID-19, mas nas estratégias de usos e vivencias da cidade integrada às questões de sociabilidade e sanitarismo. Estas mesmas cidades também não estão sendo projetadas ou planejadas por urbanistas apenas, mas pela diversidade de ações de seus moradores. 

O sentido da categoria profissional como a mente de saber solucionadora por si só não tem mais a hegemonia. O que vemos operar é um conjunto de inteligencias coletivas, nas quais essas categorias inclusive fazem parte. Tanto os médicos que estão no front das UTIs aos Garis que estão no front de sanitização do espaço urbano, estamos todos reconstruindo nossas formas de atuar viver e se integrar. 
É notório que as cidades que apresentam os melhores resultados são as que tem operado de forma mais coletiva e integrada socialmente. Nova Zelândia por exemplo, agiu de forma sistêmica, com seu fechamento de aeroportos, testagem e isolamento de casos suspeitos e o forte isolamento social com base na conscientização da população que se sente parte da solução. Coreia do Sul focou na testagem em massa e rastreamento de assintomáticos, em inúmeros países (como é o caso do Brasil) optou-se pelo isolamento social na busca de conter os avanços da teia de disseminação virótica. Alemanha focou na rastreabilidade máxima dos casos, testagem em massa, isolamento e reforço financeiro no sistema econômico do país. China atuou com forte controle social para garantir o isolamento. 

No Brasil o trabalho se torna mais duro, mas pode ser um exemplo da ação em redes. A incapacidade da liderança central (seu presidente) centralizar as decisões é nossa melhor salvaguarda a tragédia completa. Além disso, temos um Sistema Integrado de Saúde que consegue pensar de forma nacional e local, associando uma série de elementos que vão da construção de hospitais de campanha até renda mínima aos mais vulneráveis. A saúde coletiva integra o micro e o macro, e todo cidadão se torna um agente público de saúde. Em Niterói, por exemplo temos desde políticas de testagem em massa até políticas de renda voltada para artistas independentes que se apresentam em redes sociais.

mapa solidário produzido por arquitetos cariocas.

O isolamento é praticamente o consenso do mundo. Ele fez nascer esta outra forma de vivenciarmos nossos lugares. Se como dizia Le Goff sobre a cidade dos tempos de São Francisco — a palavra urbana estava nas praças — hoje a palavra urbana parece estar nas redes.


Concomitante às estratégias mais estruturadas dos governos, o povo que está em isolamento também se organizou em torno de um circuito de redes. Conectados às pontas da saúde, vemos uma série de ações integradas e multidisciplinares que vão desde a conscientização, ajuda mútua, costuras, artes, denúncias, cartografias populares, monitoramento, entre outros. 

cartaz de grupos de apoio aos subúrbios do RJ
Podemos ver por exemplo:
  • redes de advogados,
  • redes de médicos,
  • redes de psicólogos,
  • redes de arquitetos e urbanistas,
  • redes de moradores de favelas, comunidades, vilas,
  • redes de ONGs e ativismos,
  • redes de artistas e artesãos,
  • redes de cozinheiros,
  • redes de compra e venda de comércios de bairro como forma de manter a economia popular ativa,
  • redes religiosas de ajuda mútua.

No recorte Rio de Janeiro, ainda podemos ver:

  • Escolas de Samba costurando EPIs e máscaras,
  • Brigadas populares de limpeza acontecendo no Santa Marta,
  • Brigadas populares de auxílio para levar água a quem não tem acesso a água,
  • Artistas independentes e famosos fazendo apresentações via internet criando espaços de sociabilidade,
  • lonas culturais e outros equipamentos de cultura funcionando como pontos de apoio e amparo social,
  • redes de pesquisadores trabalhando para produzir equipamentos de respiração mecânica de patente livre,
  • redes de urbanistas criando cartografias que permitem encontrar quem quer doar e quem precisa receber a doação, 
  • redes de franciscanos que promovem alimentação a população que não tem o que comer.

As redes tendem a surgir em tempos de emergência. São uma forma de organização social eficiente para estes momentos. Alinham por si mesmas, de maneira orgânica, a capacidade de agir com velocidade e gerencia colaborativa sobre diversos elos da pandemia. Atuam enquanto instrumentos de trabalho vivo direcionados a pauta comum, que hoje nos é universal: lutar pra sobreviver a pandemia.

Movimento Muda Beaga

É plausível crer que as narrativas corporativas do trabalho tradicional não conseguirão suplantar o trabalho coletivo, sistêmico e integrado (mesmo que seja trabalho realizado por redes de automação e algoritmos) e constituirão lá na frente outros campos da contradição  para se disputar. \”Trabalhe enquanto eles dormem, ou Trabalhem pois é só uma gripezinha\” são discursos de campos antigos que acabam por reduzir a vida a esta lógica corporativa do trabalho individual como forma de crescimento pessoal. Esta narrativa não terá efetividade neste momento para além de nos levar a tragédia.


O que estamos experimentando neste recorte, escala e momento é o trabalho cooperativo e internacionalizado. Nos movimentamos com base em informação e na dinâmica de trocas constantes onde autoria, patente, protagonismo estão em segundo plano. Assim, as redes caminham fortes rumo a se firmarem como paradigma. Sejam redes de dados e algoritmos para controle social com a consolidação de instrumentos de big data que propiciem quase uma automação de decisões sobre o urbano, sejam redes de diálogos em trabalhos, sejam redes de resistência e lutas anti-segregação, ou redes comunitárias de colaboração. Talvez estejamos caminhando para um ponto complexo onde a automação das decisões sobre a cidade se confrontem com a realidade dos muitos segregados dentro dela.


As novas lutas pelo trabalho talvez tenham que se deslocar do campo corporativo e caminhar para as lutas em defesa do trabalho vivo e mais amplo. Por exemplo, sindicatos lutando menos por uma visão de um grupo específico e mais pela visão do todo da produção e segregação. As pautas se tornarão cada vez menos a proteção a uma categoria e cada vez mais a proteção coletiva  dos sem trabalho, dos sem emprego e sem renda, cada vez mais a luta por novas formas de vida do que por empregos ou empregabilidades. 


Se esta forma de organização que começa a ganhar a produção das cidades em meio a crise sanitária se tornará um padrão, não temos como saber. Ainda é muito cedo para produzir algo assertivo a respeito da pós-pandemia, mas podemos dizer que um modelo de auto-organização produz resultados importantes de vivencias sociais e que estas devem ser consideradas em processos de emancipação das decisões políticas.

croqui sistematizando redes (autoria própria).


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