Os Subúrbios que os Subúrbios escondem – parte 1

Uma marca de poder sobre o recorte espacial suburbano está nos processos constantes de invisibilidade que o mesmo sofre e a luta constante de busca de identidade unificada que partem de seus invisíveis moradores. Porém estes processos também perpassam a relação interna do identitarismo suburbano.

Um trabalho bem interessante para debatermos sobre tal questão vem do Leandro Clímaco que estudou, pesquisou e publicou em 2017 a ascensão de um processo identitário de suburbano a partir de um movimento de imprensa constituído pela classe abastada suburbana entre 1900 e 1920. Sobre seu resultado farei um micro recorte para expandir uma problematização aqui: a imagem estereótipo de Subúrbio branco.

O trabalho de Climaco nos apresenta como os movimentos de pessoas mais nobres da sociedade carioca a época se utilizaram da mídia para, entre outras coisas construir a valorização de uma identidade suburbana. Esta porém escondia a diversidade da construção social, e entre elas considerava algumas bandeiras que até hoje nos são caras socialmente. Entre estas vou destacar a questão racial.

Em meios a uma sociedade que constituiria seu tecido a partir do tratamento do pobre e negro como “‘classes perigosas” (como cita Climaco) o grupo mais abastado que morava nestes territórios produziram uma imprensa que visava alertar para os riscos de não se investir em melhores condições para estes territórios cujo tecido social poderia entrar em colapso se abandonado fosse. Porém, mantinham a ambiguidade e o discurso das classes perigosas. Hoje este processo não é muito diferente das páginas de notícias de bairros que vivem basicamente de quatro pautas: compra-venda, achados e perdidos, cobrança de melhorias do poder público, denuncias dos perigos vindos das “classes perigosas”.

O desenho de unidade suburbana que Climaco expõe parece atravessar décadas e séculos deixando rastros e resquícios até nossos dias atuais. É comum vermos de forma massificada a imagem de suburbano sendo retratada de maneira jocosa: o personagem escandaloso, meio desajustado das normas sociais, sem etiqueta (mesmo que isso tudo sejam ferramentas de controle social). Vale lembrar que o padrão de Suburbs que escalaria a sociedade a partir da classe média americana fordista que se compõem pela família do comercial de margarina, Homem-Mulher-Filhos-Cachorro que terá uma casa um carro e eletrodomésticos.

Nossos subúrbios pro sua vez ficam no ambiguidade. Não são referenciados por estes padrões, mas também retratam e mantém no imaginário popular um recorte que esconde a maior parte de sua população: Os negros e pobres. Quando se assume pelo estereótipo que consiste na casinha neocolonial e na família portuguesa esconde de si mesmo o seu chão.

Foto Poder — Carlos Vergara

Nossa cultura, podemos citar por exemplo, a festa da Penha, o Samba, o Funk, o choro, a arte plástica, a literatura é permeada pelo protagonismo de nossa gente e nosso chão. Mas esta gente que entre 1900 e 1920 e até hoje será retratada como classe perigosa será embranquecida pelos processos de identitarismo ou será escondida por trás da branquitude S.A. que hegemoniza racialmente os espaços.

Manguinhos-Casas suburbanas fonte: CenaRios

Ainda hoje esse resquício de visão de mundo permanece no imaginário que molda a busca de uma identidade suburbana para muitos. Ficar preso neste processo é nefasto pois recorta as lutas que seriam as nossas. O embranquecimento do discurso suburbano alimenta brutalmente o racismo neste território. Não é incomum vermos relações de classe e renda nos bairros pobres da cidade e Região Metropolitana do Rio, onde inúmeros negros terão condições econômicas melhores que seus vizinhos brancos, ainda assim a pele deles refletirá a alcunha que demarca o Brasil — “A classe perigosa”.

Estas são muralhas territoriais que precisam ser rompidas. É praticamente impossível se pensar em lutas identitárias suburbanas sem traçar as contradições e os conflitos raciais que compõem este tecido social chamado Brasil. Classes Perigosas podem e devem ser lidas como: Aqueles que podem ameaçar diretamente um processo de controle e hegemonia destas tentativas de unidade identitária em torno de um projeto já estabelecido de poder, que no Brasil é classista e racista.

Meme retirado de: O Brasil que deu Certo

Recomendamos aqui o trabalho do Leandro Clímaco: Jornalismo como missão: Militância e Imprensa nos Subúrbios Cariocas: 1900–1920. link: <a class="cl di js jt ju jv" href="https://www.historia.uff.br/stricto/td/1952.pdf&quot; rel="noopener nofollow" style="-webkit-tap-highlight-color: transparent; background-image: url("data:image/svg+xml;utf8,\”); background-position: 0px calc(1em + 1px); background-repeat: repeat-x; background-size: 1px 1px; box-sizing: inherit; text-decoration-line: none;\” target=\”_blank\”>https://www.historia.uff.br/stricto/td/1952.pdf


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