O SUBURBANO VAI À PRAIA

Um tipo corriqueiro de notícia acontece em todas as proximidades de verão: a disputa da cidade pelo direito de uso e frequência da praia. Quando observamos no decorrer do tempo, percebemos que este movimento não constitui fatos puramente locais ou um casos isolados. O que se constrói mesmo é um organização simbólica da praia como um direito de todos os cidadãos. O Rio conhecido como cidade balneário, apesar de ter assassinado suas duas baías, define o controle social, todos os cidadãos podem utilizar da praia mediante uma certa forma de se ser e se portar, mas o principal é que ao invés da praia ser entendida como pertencente a todos os cidadãos ela é entendida como pertencente aos moradores do bairro.

O texto abaixo foi um fragmento da dissertação defendida: Rizomas Suburbanos: possíveis ressignificações do topônimo Subúrbio Carioca através dos afetos de 2015, mais precisamente nas páginas 67 a 69. Segue o fragmento na íntegra:


Quando falamos de Subúrbios Cariocas e disputas territoriais, percebemos que a ida à praia representa notório conflito na cidade. Fazemos uma ressalva de que problematizar e se aprofundar nas questões associadas ao uso e apropriação da praia exigiria outra pesquisa. O que demonstramos aqui é como as subjetividades podem ser traçadas a pela imprensa e que discursos são ditos com isso, ou ficam marcados através disso. Neste ponto, levantamos algumas notícias de jornais datadas entre os anos de 1969 e 1991 que nos remete a estes conflitos.

Algumas notícias de jornais:

Ida à praia nos Subúrbios é uma excursão e uma aventura.
A maioria dos suburbanos passa a semana de olho no boletim meteorológico,
planejando nos mínimos detalhes um banho de mar e uma praia no fim de
semana, junto com a mulher e os filhos. (…) Sete ou oito horas da manhã, eis
o suburbano desembarcado com mulher, filhos e mochila na praia de Ramos,
onde a condução para a volta é mais fácil ou nas outras na ilha do governador
após enfrentar uma fila maior nos terminais de coletivos (…). Atravessar a
praia de volta foi a mesma coisa da chegada(…)Na Avenida Brasil a confusão
era total. Motoristas de taxi brigando com seus colegas das Kombi(…). As filas
de ônibus intermináveis (…) Novos protestos, mais empurrões e recomeça a
luta por um lugar no coletivo(…)finalmente chega em casa(…)ele, com o corpo
ainda pegajoso da água suja do mar, as costas ardendo das queimaduras do
sol, resolve tomar uma cerveja no boteco da esquina e contar aos amigos as
suas extraordinárias aventuras na praia (O GLOBO 06 de janeiro de 1969).

Zona Norte terá em janeiro novos caminhos para a Barra – Na
primeira quinzena de janeiro estará bastante facilitado o acesso as praias da
Barra da Tijuca, principalmente para os moradores da Zona Norte e dos
Subúrbios(…) (O GLOBO, 11 de dezembro de 1972).

Depois da praia, na Barra, a difícil volta aos Subúrbios – (…) equipados
com pedaços de pau e até mesmo uma barra de ferro, inspetores e motoristas
realizavam a difícil tarefa de empurrar o maior número de banhistas para
dentro dos ônibus (…). As empresas só sabem reclamar, mas não colocam
mais ônibus para o subúrbio. O que acontece é isso aí: os banhistas ficam
irritados e terminam tumultuando o embarque e a viagem. Na entrada, perto
da descida do viaduto que liga a Barra ao túnel do Joá, mais de uma centena
de passageiros se aglomerava no ponto de parada, mas poucos conseguiam
embarcar(…) (O GLOBO 17 de novembro de 1975).

Praia da Urca: um sufoco em todo fim de semana: – Para moradores,
verdadeiro transtorno: Alguns moradores da Urca estão revoltados com o que
eles consideram uma verdadeira invasão suburbana que toma conta do bairro
durante os fins de semana. (…) Iasmim se queixa dos problemas causados
pelos suburbanos. – Eles fazem parte de um outro nível de pessoas com as
quais não queremos conviver (…). Os moradores da Urca são tradicionais e
não gostam de se misturar. Não sou contra os suburbanos, mas acho que
deveria haver um espaço delimitado para eles. (…) O número de suburbanos
é enorme e o clima muda completamente. A praia fica cheia de uma gente
esquisita, que deixa uma sujeira incrível. (…) a maioria dos moradores se sente
“roubada” no seu espaço (O GLOBO 03 de fevereiro de 1987).

A viagem dos surfistas do subúrbio – Moram perto da praia, mas estão
há uma hora e meia das areias da Zona Sul. Perto do mar e longe das ondas,
eles são os surfistas do subúrbio, que de ônibus ou de carona viajam mais de
20 quilômetros para chegar à Barra da Tijuca e esquecerem da poluída e calma
praia de Ramos. (…) (O GLOBO 17 de fevereiro de 1991).


Quando lemos os relatos das idas e vindas, não importando a data, aparecem questões similares que envolvem problemas de mobilidade urbana e estranhamentos sociais. O primeiro relato de ida à praia que encontramos cita as praias suburbanas balneáveis de Ramos e da Ilha do Governador (que na notícia de 1991 já se apresentam poluídas). Segundo as reportagens, a ida à praia é ao mesmo tempo “excursão”, “viagem” e “uma aventura suburbana” para os que vem dos Subúrbios, e uma “invasão suburbana” para os que são da Zona Sul. Isso não quer dizer que há um antagonismo direto, haja vista que uma notícia se refere à ida às praias suburbanas e outra à ida às praias da Zona Sul, sem contar no distanciamento temporal que as separa.


É interessante notar que o personagem principal – “o suburbano” – em todas as notícias é visto de um ponto de vista externo, reforçando a experiência do exótico. Aqui, o suburbano se assemelha muito ao estereótipo estampado na charge de 1916. O suburbano é este anônimo que leva a família para ficar o dia inteiro na praia, sofre para conseguir condução, mas que embora chegue em casa com “o corpo ainda pegajoso”, decide parar no botequim para contar suas desventuras.


As notícias de 1972 e 1975 se correlacionam tanto no tempo como no espaço, se por um lado, em 1972, era apresentado com vislumbre a abertura da Barra da Tijuca à Zona Norte e Subúrbios, a notícia de 1975 contradiz o resultado proposto ao demonstrar que os mesmos problemas de acesso da praia aos Subúrbios, relacionados à mobilidade urbana, ainda persistiam.


A questão da falta de estrutura urbana para suportar tal movimento já tradicional nos verões da cidade é sutilmente disfarçada nos jornais como um problema do usuário, no caso o suburbano. Com isso, subvertem-se as propostas populares, de forma que a falta de transporte para atender a demanda não seja vista como um problema para a parte “não suburbana” do conflito, mas sim como uma solução plausível.


Assim, cortar transporte público se tornaria um meio de garantir a “delimitação de um espaço próprio para eles”, que na condição de “gente esquisita”, são parte de “outro nível de pessoas” com as quais “não se quer viver”, e que estes, apesar de morarem “perto da praia” (Ramos e Ilha do Governador), precisam andar “uma hora e meia para atingir as areias da Zona Sul”.


Entendemos que há um peso pejorativo na questão do suburbano quando este tenta se deslocar do território. Ainda que a praia seja um espaço público direito de todo cidadão, o suburbano é tratado pela imprensa como aquele que não deveria estar lá. Isso se reflete em diversas desconfianças urbanas, onde projetos como o Piscinão de Ramos ou o Parque Madureira são interpretados como um meio de afastar o suburbano da praia e imobilizá-lo em seu território. Citamos aqui uma notícia49 recente sobre a inauguração da praia do Parque Madureira:

(…) se a natureza não facilitou a vida dos moradores da Zona Norte — e a ida à orla pode ficar mais complicada com a diminuição das linhas de ônibus para a Zona Sul —, a solução deve surgir como um presente do Dia das Crianças (O GLOBO, 16 de setembro de 2015).

Elucidamos que há um potencial processo de captura das significações da praia. Ao observarmos os dados da extensão de praias na cidade, temos que as praias que vão da Glória até Grumari possuem 39,53km, enquanto as praias municipais referentes à Zona Norte, Baía de Sepetiba e Ilha de Paquetá somariam 44,82km de extensão, conforme dados levantados no IPP. Podemos constatar, portanto, que seria um mito relacionar os Subúrbios Cariocas a lugares sem praia, assim como sem privilégios naturais.


Importante notar também como esta subjetividade colabora com a estratégia de uso não balneável das duas baías da cidade do Rio, Baía de Sepetiba e Baía de Guanabara.


O Rio de Janeiro tem o privilégio raro de ser uma cidade banhada por duas baías, cujas políticas historicamente as negaram. Ambas foram utilizadas como fundo, porta de serviço da cidade, hoje seguem poluídas, mesmo após Rio 92, Rio +20, Rio Olímpico, Rio Capital Mundial da Arquitetura. Assim, segue o descaso e a marca da segregação urbana na qual nos inserimos.

Praia de Sepetiba 1970 – arquivo nacional extraída de : https://saibahistoria.blogspot.com/2018/06/o-rio-comeca-em-sepetiba.html

imagem destaque, fonte: https://www.facebook.com/Coreto-de-Sepetiba-Rj-668294449888034


comente