Já não basta sermos Latinos, já não nos bastam as identidades

É muito curioso pensar como as palavras tem um certo poder. Em nome de uma resistência ao imperialismo antiamericano, buscamos por muito tempo a construção de uma identidade latina. Esta identidade, que como qualquer outra se forja pela aglutinação e trabalho sobre alguns elementos comuns, resplandeceu na tentativa de consolidar uma força continental capaz de enfrentar o domínio dos EUA (país economicamente mais poderoso).

De certo porém, este postulado cria problemas e limitações. Entre elas, um problema notável é que a busca de uma identidade latina como resistência a uma identidade anglo-saxônica acaba por repetir a dicotomia do processo de expansão imperialista que vigorava desde as grandes navegações do mercantilismo até o processo industrial (dos primórdios ao mundo contemporâneo). Isto é, em nome de uma liberdade dos povos, acabamos por traçar uma disputa territorial ainda construída sobre signos de uma relação império-colônia, mantendo firmes todas as suas contradições.

Somos capazes hoje de determinar quantos povos compõem todas as relações sociais, econômicas e culturais do novo continente? Esta é uma pergunta importante de refletir. Há similaridades nos processos de apagamento histórico dos diversos povos que habitavam as terras antes das explorações, assim como dos povos que foram forçados a estar nestas terras como mão de obra escravizada, histórias que resistiram em meandros e relações moleculares, dentro das redes possíveis de serem traçadas. Redes estas que inclusive precisam considerar a construção hegemônica na sua formação cultural.

Com base nisto, entendo que meras disputas de resistência ou recortes que buscam negar o traço hegemônico como parte da concepção de visão de mundo, se tornarão tão enviesadas quanto aquelas que não tentam compreender as construções que estão nos interstícios ou subterrâneos das formações de saberes. De certa forma, uma leitura do Imperialismo que se mantém hoje, sem a leitura crítica das mudanças materiais do mundo, também reflete muito mais uma tentativa de manter uma identidade do que foi concebido com resistência progressista do que uma realidade a se enfrentar. Não precisamos mais entender o que é o Imperialismo, apenas seguir repetindo os mantras estabelecidos em décadas para aglutinar os nossos em torno da resistência.

Debater por exemplo, se o Halloween ser comemorado no Brasil é lícito ou se isso representa uma forma de aculturação e colonização, é deixar de lado que tal festa já é expressada de forma sincrética no México por exemplo e em outros inúmeros países do globo. Sem considerar que são parte de uma mesma visão de mundo que nos leva a celebrar o dia 2 de novembro como data de relembrar os nossos ancestrais. O que nos é mais interessante? Simplesmente negar a festividade ou buscarmos um aprofundamento da experiência, da história e da formação da mesma?

Outra referência interessante pra reflexão. Enquanto líderes globais discutem mais uma vez a urgência da crise climática, tentando encontrar caminhos quase impossíveis de saída, vale lembrarmos da experiência de Evo Morales com a Lei da Terra, que possibilita uma nova proposta de visão de mundo. A mesma só é possível de ser concebida se lermos dentro de uma costura capaz de interpretar o melhor dos encontros entre a origem indígena de Evo, um filho dos povos originários deste território continental, com a cultura latino-europeia que desenha o contrato social constitucional de nossos países.

Nós, enquanto humanidade, temos no história de nossa existência o desejo de conexão com a terra. Conexão esta que num dado momento abandonamos e cuja cultura do homem como um ente separado da terra vingou. Esta cultura precisa ser religada em todas as esferas possíveis. Pensar o Planeta como um ente completo, do qual somos parte, e projetar uma rede de partilha vai exigir muitas viradas de chave. A dificuldade maior será: como conciliar isso em um mundo onde a Terra é propriedade privada e peça fundamental para a manutenção do sistema de produção de riquezas? Vale lembrar que estas mesmas perguntas já foram feitas durante a pressão pela ruptura dos modelos escravagistas, onde homens, eram vistos exatamente assim: como propriedades privadas (objetos) e peça fundamental para a manutenção do sistema de produção de riquezas.

Neste mundo global, onde cada vez mais as discrepâncias entre as concentrações de renda e a miséria dos povos se dá. Os modelos de governo se encontram limitados e ineficazes diante das formas de organização supra territoriais, precisaremos construir e recuperar ferramentas que explodam estas relações, compreendendo que uma política isolada não resolverá. O atual contexto da crise global inclusive nos pede uma virada de chave mais radical (indo a raiz dos problemas) e de coragem de mudança do sistema em que estamos inseridos. A busca por uma identidade comum nos falha por também representar uma fronteira que enviesa as relações de exploração.

Com base nisso, sabemos que não é fácil uma mudança de paradigma. Ainda hoje vemos que não é tão simples a abolição completa do racismo e da escravidão na sociedade. Da mesma forma, assim como os mais pobres ainda são lidos como seres passíveis de todo tipo de exploração, não será simples a humanidade abolir o sentido de que o Planeta é só um objeto passível de exploração e aceitá-la como um organismo vivo completo do qual fazemos parte. Podemos e devemos iniciar religando esta ética que se mantém nos povos mais originários e mais tradicionais do planeta, independente dos continentes que habitam. Em nossa visão de mundo paradigmaticamente ocidental, economia e ecologia tem um mesmo radical, óikos, nossa casa que também é nosso Planeta. Hoje, objetificamos a Terra, exploramos seus recursos e sequer somos capazes de utilizar isso para fins de manter viva a nossa espécie. Explora-se tudo que a mão alcança, para benefício de meia dúzia. Basta ver como países que movem parte significativa da economia pelo agronegócio são também bolsões de populações que passam pela fome.

Precisamos recuperar o olhar integral da humanidade pela Planeta. Isso não será simples ou harmônico, pois mexe diretamente com quem garante suas riquezas, poderes e seu bem-estar às custas da exploração de todos (sejam animais, vegetais ou minerais) os entes que formam este ser, mas precisaremos enfrentar. Precisamos aprender a retomar as conexões mais profundas dos que celebram suas colheitas, ou o equilíbrio, a ancestralidade e as mais diversas formas de contemplação da vida. Talvez um dos nossos erros hoje, é acreditarmos que esta saída será tranquila, pacífica, por ações individuais, não será, vai exigir enfrentamento, como qualquer luta de libertação humanitária sempre exigiu. Precisamos abolir o planeta do processo de escravidão em que ele foi colocado.


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