Entre o espaço e o tempo fiquei me perguntando: qual o lugar do tempo?

No corre da vida fiquei tentando vislumbrar isso. Fui dar uma busca no campo da física, por ali, o nosso sentido de espaço já diz pouco, ao que parece no universo as relações que na Terra são coerentes não o são no espaço.

Por ali entendi um pouco mais sobre o conceito de tempo também como um conceito de transformação. Acho que nos acostumamos demais a pensar o tempo a partir do relógio, desmontar isso foi importante. Comecei a remontar e certas coisas passaram a fazer mais sentido. Quando os textos bíblicos (do tempo do bronze) diziam de homens de 400 anos, onde no máximo fariam sentido homens de 30, ou sei lá jornadas de 40 anos que poderiam ser feitas em dias. Se a gente para pra pensar o sentido de tempo daquela época, o paradigma girava em torno dos solstícios e a eternidade. Porque gastar energia construindo Stonehenge, ou as pirâmides de Guizé? provavelmente não caiba nos dias de hoje.

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O mundo moderno e seu relógio e sua fábrica nos colocou na jornada diária, que também é pura convenção, se a gente sai do planeta Terra a jornada diária (uma volta da terra em torno de si mesma) perde totalmente o sentido. Aí voltei pra física e sua dobra no espaço-tempo que nem sei se cabe entendermos com certeza, mas pra viver na Terra basta pensar que o tempo não está dado como pensamos dentro de uma representação do relógio.

Numa entrevista com o professor Mauricio Javier (posso por o link aqui) ao questioná-lo sobre surgiram temas muito bons. Ressalto que o professor é colombiano, embebido na visão de mundo dos povos originários da América Latina. Cito dois momentos:

Momento um: quando ele diz que aprendeu com um membro de um povo originário sobre o tempo: o indígena lhe disse que pra eles só existe o presente e que o futuro é o passado que está a frente.

Momento dois: quando ele passou outro lapso de experiência de vida que achei interessantíssimo compartilhar.

Em meio ao extremo cansaço em que passava numa virada de noite fazendo um projeto, ele dormiu na prancheta. Diz ele que foi um cochilo de meia hora, porém nesse cochilo ele teve um sonho lúcido que durou OITO horas. Neste sonho ele projetou, fez todos os desenhos necessários tudo certinho. Quando acordou (óbvio que não tinha o projeto pois teria ficado no sonho) e após ele ter ido a classe no dia seguinte, conversou com os amigos e contou o sonho, e os amigos entraram na onda de desenhar o projeto que ele tinha feito durante o sonho.

Em 1998 Ryutaro Nakamura trazia a nós uma leitura futurista, em seu anime (que pra minha geração seria chamado de desenho japonês, mas o tempo já mudou isso) Serial Experiments Lain uma percepção importante no espaço-tempo. Quando uma espécie de rede mundial de internet está inserida no cotidiano, a separação entre o virtual e o real se torna cada vez mais difícil e complexa de lidar.

Quem precisa de um corpo quando se pode ter todos os dados do mundo? Porém ter todos os dados do mundo ou a onisciência não fazem de você um Deus se não tiver ninguém que o reverencie por isso. “Eu nunca vi você, como você diz que me conhece? [A resposta]: isso foi sempre um fluxo de informações e toma sempre novos rumos”. Estas são algumas das questões lançadas nesta obra cujo protagonista é um ente dúbio entre ser uma criança e ser uma inteligência artificial programada pela rede. O autor deixa de forma clara e instigante na abertura da trama que esta se passa no presente e neste instante. A cidade é a cidade do nosso tempo com seus postes de iluminação e cabos, e o complexo emaranhado de dados da rede mundial de internet também o é.

Saindo da arte ficcional e retomando alguns acadêmicos, David Bohm traz uma alegoria interessante ao apresentar que a semente por si pouco pouco contribui para a substancia material de uma árvore, que em última instancia vem da terra do ar da água, entre outros, cabendo a semente o elemento da informação que dirige este crescimento, o DNA. O Crescimento da planta retrata um sistema de transformação contínua das substâncias materiais do espaço onde ela está inserida (a nós esta é a parte que importa refletir para o momento). Transformação é uma boa palavra pra tentarmos encontrar uma alegoria para o tempo.  

Paul Virilio foi certeiro quando trouxe para o espaço físico (do nosso planeta) o paradigma do tempo e quando aponta a nossa dificuldade no cotidiano de entender o tempo contínuo. Em nosso cotidiano o tempo só faz sentido, só é vivido se for tempo interrompido (segundo ele) e é nesse momento que a gente enxerga o acontecimento. Um relógio são micro interrupções sequenciais, podemos pensar. Dentro deste prisma que entendemos porque não somos capazes de perceber que estamos mais velhos num recorte de horas ou minutos, mas percebemos nitidamente quando, já adultos, olhamos uma foto nossa de criança. Também dentro deste prisma que se torna muito difícil perceber o tempo instantâneo no qual caminham os fluxos de dados da internet por exemplo.  

Paul Virilio insere o tempo no espaço construído, considera ele que além da matéria, o espaço implica a “profusão de efeitos especiais  que afetam a consciência do tempo e das distâncias”. Em alguma mesa perto estava Cacciari compreendendo que os edifícios se tornaram acontecimentos, assim como a terra, água, ar, sol, semente se tornou um jequitibá.

E o espaço? Se o espaço é um recorte limitado em uma duas ou três dimensões, medido em alguma ordem de valor – chutemos o metro como exemplo.

Alguém lhe pergunta: Você vai na aula hoje? fica lá no outro prédio.

E você prontamente responde: Vou sim, chego em 15 minutos. (cadê o metro?)

E quando a aula é virtual e a sala que estava lá agora está no seu telefone, no seu bolso e o tempo entre a informação sair de lá chegar no satélite e retornar ao seu telefone é tão instantâneo que o espaço virtual fica parecendo um buraco negro?

Esta talvez seja a grande crise, a próxima jornada ou a jornada presente não está mais sendo dada por um dia (uma volta em torno do sol), mas pela instantaneidade das redes de comunicação. E este tempo já não é tão simples e confortável do corpo captar como antes.

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