DOS SUBÚRBIOS ROMANTIZADOS ONDE VIVEM OS BONS SELVAGENS

No Rio de Janeiro segregado e desigual, o suburbano é aquele que, através de um olhar tático sobre a vida tenta resistir as intempéries das escolhas políticas extremamente desiguais que comportam esta cidade. Se outrora os Subúrbios foram um intermeio entre o urbano e o rural, hoje podemos refletir sobre o mesmo termo ser um intermeio entre o a parte aceita da cidade e a favela.

Algo importante a dizer, quando falamos em favela, em subúrbio, em urbis, o que está em pauta não é a morfologia, a distância periferia-centro ou outros. O eixo principal é a forma de organizar e distribuir socialmente o povo e os recursos do território. Neste sentido podemos traçar por exemplo que: Favela, é o território onde o Estado considera legitimo matar, com anuência da opinião pública. Independente de seu traçado urbano é um território excluído dos mais básicos direitos civis como acesso a moradia, saneamento, transporte, direito, lazer, cultura.

Quando se fala em Subúrbios, o que temos é uma fusão das condições da parte aceita da cidade com a parte que a cidade não quer. Falamos sobre territórios de grande ambiguidade e discrepâncias intraurbanas. Uma distribuição de bairros de classe média a bairros mais pobres, alguns pequenos núcleos melhor estruturados comercialmente e imensos vazios urbanos negligenciados. A violência explícita que incide sobre as Favelas, não incide de mesma forma sobre os lugares que se denominam Subúrbios. Nestes a violência social se organiza de forma mais implícita, em geral pelo descaso. Ambos porém, enfrentam o viés da precariedade socioeconômica da vida como elo comum. São muitos aprofundamentos que já foram trazidos em alguns textos aqui e que continuaremos a trazer em mais textos logo a frente.

O recorte que queremos trazer neste momento consiste nos riscos da romantização. Entre as inúmeras formas de resistência social, a busca de um Subúrbio Ideal é uma delas. Esta busca não consiste apenas na reminiscência saudosista do uso da rua, das pipas, das cadeiras de quintal, ela também incide na própria construção de um sentido de identidade. Tentamos encontrar um sentido único e definido de Subúrbio, seja pela auto concepção na busca de um sentido unificado cultural que o defina, seja na busca de um perfil suburbano tipo, um padrão de referência que dê distinção ao personagem. A questão é: como unificar em torno de um sentido toda a complexidade de relações, muitas das vezes hiper contraditórias? Como traçar uma identidade suburbana que trate como iguais por exemplo os moradores da Tijuca, do Méier e do Cesarão?

As tentativas de identidade acabam por abarcar um certo nicho ou grupamento cultural com o qual consegue traçar uma linha que guie a narrativa e manter invisíveis um oceano de multiplicidades e de outras narrativas reais que coexistem com estes. O samba por exemplo, por toda sua capacidade de se capilarizar nos espaços dos territórios suburbanos apesar do status quo do projeto de nação vigente, consegue fazer um bom papel nesta costura. Porém o samba tem seu reconhecimento neste papel hoje, depois de décadas de perseguição policial e criminalização. Como pensar as casinhas coloniais, arquitetura referência de uma política de Estado que buscou nas inspirações neocoloniais (remetendo às cortes portuguesas) os signos de sua estética, pertencem ao mesmo corpo de símbolos identitários que o samba duramente perseguido por ser negro?

Um dos meios mais simples de tentar unificar consiste no não aprofundamento das questões, mantendo-as na superfície sem explorar ou dar voz aos contradições. Algo muito bem trabalhado por exemplo pelo marketing, onde até o slogan mais vazio de significado como por exemplo “coca cola é isso aí” vira uma máquina de sucesso.

Os riscos desse processo é que: sem aprofundamento, temos muita dificuldade de romper com a estrutura de segregação que conforma o território, além do imenso risco de criação e manutenção de estereótipos. E este é um ponto crucial. Para seguirmos em frente precisamos lembrar que, quem tem o poder de comando do território é quem define as políticas sobre ele.

Embora o Rio viva grandes avanços, em especial através da cultura onde os intelectuais orgânicos brotam dos subúrbios, favelas e baixadas de geração em geração, estes esbarram nos limites de quem detém o poder. E são estes donos do poder que tem a capacidade de captar as narrativas e escrever de forma mais massificada conforme lhes interessa. E é assim que por exemplo um problema do subúrbio ou favela que a elite não quer resolver se transforma em exemplos individuais de superação, ainda que o protagonista do exemplo só esteja tentando manter sua família minimamente viva.

O poder, como um ente representante da civilização, consegue por um braço manter o território sob controle e por outro braço criam a narrativa romantizada em torno dessa má qualidade. Não precisa, portanto, dar cabo de resolver as questões estruturais que garantam qualidade de vida a todos os munícipes. Ainda mais nefasto, conseguem transformar esta romantização da pobreza em mercadoria ou evento. Nesta manutenção da segregação, os suburbanos ou favelados são constantemente tratados (até pelos mais progressistas) como o Bom Selvagem de Rousseau. Talvez como um meio inconsciente de se eximir da responsabilidade de dar a este cidadão o direito a experimentar dos mesmos valores e hábitos que são destinados às partes mais burguesas da cidade pela estrutura material.

Uma frase do filósofo Wallace Lopez que sempre me diverte ao ouvir em suas palestras: “A Regina Casé gosta da favela, mas não mora na favela”. É importante termos esta consciência política e social. Romantizamos que o morador da Zona Sul não consegue apreciar o futebol suburbano, o nosso botequim o nosso futebol de domingo.

O importante, porém, é entendermos que qualquer morador dos territórios abastados pode dirigir seus automóveis até o futebol ou pegar as duas conduções necessárias para ir de uma Gávea a Olaria por exemplo, mas nem todo morador de Olaria que joga o futebol terá o dinheiro pra ir a um teatro na Gávea. Fora que, muitos moradores suburbanos sequer terão o direito de pisar numa praia sem serem taxados como marginais. Direito a cidade é também sobre isso, e não há romantismo que faça isso ser costurado com facilidade.

Assim a cidade do Rio de Janeiro segue se construindo pelos mesmos donos da bola (e do campo) embora muitas vezes mude a cor da embalagem. Cabe a nós buscar a fundo compreender como este mecanismo de controle se dá.


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