Dos Porões. Ditadura Nunca Mais!

 Um dos projetos mais nefastos de segregação espacial conecta alguns porões no Brasil. Dos porões dos navios negreiros, aos porões das sanzalas, aos porões da ditadura e atualmente aos porões da cidade, nossa terra segue segregada.

Nesta semana, o Brasil relembra um dos momentos mais obscuros de sua história. Momentos em que as máquinas de combate das forças militares derrubavam um presidente eleito que buscava construir caminhos de justiça social e reparação histórica. É importante ressaltar porém que estas máquinas de combate sempre estiveram aí.

Nossa história, tanto a recente como a mais antiga é um compêndio de ações militares para assegurar que as condições de segregação popular permaneçam, pois esta segregação move parte de nossa economia. O Brasil, que já fora um dos maiores receptores de pessoas escravizadas do mundo, mantém ainda na pele e no corpo negro o peso do açoite. O faz enquanto sua elite disputa o espólio do território, do poder e controle financeiro, da valoração da terra entre outros.

Mesmo quem pleiteia as linhas ideológicas liberais como meios de se constituir uma classe média, famílias dignas de comercial de margarina, não conseguem desmontar esta estrutura de gestão econômica que nos conforma e nos mata em seus porões. O golpe de 64 é uma das caras trágicas dessa história, o momento em que uma elite militar assume o controle e substitui a lógica política pela lógica de guerra, calando toda e qualquer voz da sociedade. Um ponto diferente do que vinha sido antes é que agora não são apenas o povo pobre e negro que viria a sofrer os porões, mas uma classe média que despontava com cultura, organização política e voz, e assim como Jango, o presidente derrubado do poder, acreditava em um Brasil diferente desde que mudada a estrutura do poder.

Hoje o presidente ganhou o direito de celebrar o golpe de 64, direito este que vem de seu entendimento revisionista, fruto da escola que o formou. Os porões sempre estiveram aí. Se na década de 80 conseguimos alcançar a redemocratização por resistência popular, organização, enfrentando 21 anos de violência física e psicológica, tortura, mortes, alguns nunca encontrados, esta redemocratização não selou os porões.

A máquina de perseguição segue, e abre um novo porão, a própria cidade, onde a segregação define que lugares são matáveis. O que é favela se não o território onde as forças do capital tem o direito de matar sem julgamento e onde o favelado tem que resistir e lutar pela vida? Este é o território segregado cujo pacto pós redemocratização não conseguiu extirpar a violência de estado.

A escola de 64 forjou inúmeros controles urbanos e sociais a base de ferro e fogo. Forjou os comandantes brasileiros do Haiti, forjou a polícia pacificadora, forjou os cavalos corredores, os carros da linguiça, a liga da justiça, forjou Bolsonaro, entre inúmeros outros.

O novo modelo de controle autoritário que começa a despontar passa pela legalização da terceirização do espaço urbano da pobreza pelo Estado. Começam a rolar uns balões de ensaio de favelas autônomas, onde o nós por nós é fagocitado pelo capital deixando de ser uma tática de resistência e sobrevivência e se tornando uma forma do sistema girar controle, dinheiro e lucros em cima das redes de solidariedade. Os poderes de Estado que sempre estiveram nas favelas não sairão, e os porões da ditadura que ocupam estes espaços de poder também permanecerão, possivelmente controlando este sistema.

Quando dizemos Ditadura Nunca Mais! este grito não é apenas um eco de lembrar que os anos de chumbo nunca mais se repitam. Este brado também traz em si o desejo e necessidade de desmontar por completo esta máquina de guerra aos pobres, que segue desde os porões dos navios negreiros ditando as regras de controle material e cognitivo da segregação do nosso País.


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