Crise, distopia, luta e um novo pacto social

O mais recente relatório da OIT (Organização Internacional do Trabalho) traz indicativos de que o número de pessoas desempregadas no mundo deve aumentar cerca de 2,5 milhões, apontando assim a manutenção da crise econômica global. O relatório aponta também que é significativo o número de pessoas que hoje já não conseguem manter uma vida a partir da esfera do trabalho.

Entre alguns fatores, recortamos como o mais marcante a estagnação no crescimento da economia global. As pautas propostas pelos programas e defensores de um sistema de austeridade não conseguem alcançar resultados efetivos de melhoria, antes disso operam em viés oposto, aumentando as redes de desigualdade social nos sistemas. As pautas progressistas voltadas a pleno emprego e outros fatores também alcançam pouca efetividade atualmente em um mundo cujo padrão econômico se tornou a financeirização , a precarização, informalidade e desemprego. 

Como exemplo, cito um recorte: dados recentes do DIEESE mostram que a política de trabalho intermitente (uma das principais ferramentas da flexibilização e precarização do sistema produtivo e pautas de salvação da austeridade) não alcançou os frutos que se imaginava. Representando 0,3% do estoque de vínculos formais no mercado de trabalho, sendo que a renda mensal destes, mal alcançou um salário mínimo. Fora publicado também em Janeiro deste ano (2020) pelo DIEESE o custo da cesta básica no Brasil. Verificou-se neste que um trabalhador remunerado com salário mínimo comprometeria no mes de dezembro de 2019 em média 48,27% do salário em cesta básica. Segundo IBGE, em 2019 cerca 41% da população estava ocupando as redes de informalidade do trabalho. Estes dados indicam a super precarização (informalidade e desemprego) como um padrão que pode se hegemonizar na sociedade brasileira. Um padrão não muito diferente de outros países como Venezuela, Chile, EUA, etc. 

Quando somamos a crise econômica com o fator climático (que já se torna impossível não ser posto em pauta) percebemos que o problema é muito mais sério e envolve os caminhos estruturais do planeta.

O colapso ambiental dá inúmeros sinais de irreversibilidade, afetando principalmente os países mais pobres e por sua vez menos estruturados. A crise que está posta pode levar a humanidade a enfrentar o maior dilema ético dos tempos recentes. Quando levado em consideração a estrutura geradora, e por sua vez a relação de custo benefício da produção, percebemos que o eixo é a desigualdade. As nações ou povos que mais sofrem com a crise econômica e ambiental, são na maioria das vezes, os que menos se beneficiam das estruturas geradoras das riquezas e dos efeitos nocivos ao planeta.

O grande xeque que pode ser nosso xeque-mate ou gol de morte súbita se dá no campo ideológico onde os poderes estabelecidos não conseguem mais responder aos anseios dos povos e os povos não conseguem mais se repactuar. Para reestruturar o pacto social emergencial, devemos trocar o foco das políticas da busca insensate do crescimento econômico para a busca pelo fim da desigualdade. Este provavelmente será o caminho para o reequilíbrio da humanidade em um planeta que já não suporta a constante produção de valores de troca e riquezas que se mantém concentradas em um seleto grupo de viventes. 

Não haverá formas de pactuação social que amenizem sem um impacto radical, em um planeta cada vez mais empobrecido e sem acesso aos mínimos recursos naturais que garantem o direito a sobrevivência. A pauta que busca o crescimento teme a parada da produção constante de riquezas pois a mesma geraria o colapso do sistema vigente, porém, a continuidade desta busca eterna por crescimento também está nos levando ao colapso.

Não precisamos de mais produtos, precisamos sim recuperar o valor de uso do que já produzimos, aplicar políticas de distribuição da renda hiper-concentrada entre os que não tem, pautar a construção de bens comuns a humanidade, em especial os que garantem a continuidade da vida, como os recursos hídricos, as florestas, a universalização do direito a cidade/campo e de renda, moradia, alimento, saúde, lazer, educação direito de ir e vir sem barreiras ou fronteiras.

As lutas serão grandes, o sistema atual mostra através de suas lideranças e estruturas de controle e poder que suas políticas podem se assumir tranquilamente malthusianas caso seja preciso. Em um mundo onde a massa de desempregados e marginalizados se torna crescente e afeta de outra forma a produção do crescimento do capital e onde o capital abraçou a vida como mercadoria. Esta vida também pode ser pesada pelo custo-benefício de existir ou não. O que cabe a esta vida é lutar.


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