Atingimos o volume morto eleitoral

Iniciarei aqui usando um termo do camarada militante da cultura Pablo Meijueiro: “atingimos o volume morto” das estratégias de coligações. Dito isso, inicio este texto (que assim como muitos outros meus) tende a desagradar boa parte da militância ufanista. O jogo das peças políticas começou a desenhar um quadro muito curioso na polarização. Primeiro vamos elencar alguns movimentos:

  • A aproximação de Lula e Alckmin, que significa uma tentativa de aproximação de Lula com parte significativa da elite brasileira que não se sente confortável com o Bolsonarismo,
  • A aproximação de alguns partidos de esquerda como o PSOL ao projeto,
  • O movimento das mesmas peças em torno do fortalecimento da polarização eleitoral na disputa Bolsonaro vs Lula,
  • A ausência de otimismo popular em torno de quaisquer dos projetos eleitorais aqui apresentados,

Bom, um primeiro trabalho que começamos a notar é a dificuldade de se constituir uma campanha de marketing que consiga alinhavar tudo isso. Na cabeça popular, que acompanhou ano a ano um nome como o Alckmin/PSDB ser dilacerado pelas campanhas do PT, nunca soará fácil compreender tal aliança, ainda mais vinda com um política que almeja o poder presidencial. Todos aqueles que se colocam como um centro, um moderado, ou alguém que não se encontra à esquerda do espectro ideológico enxergará isso como algo puramente eleitoreiro e oportunista, talvez até como um desespero pela volta ao poder pelo poder.

Para as forças a esquerda, todo este quadro do volume morto representa algo pior. Partidos que se constituíram como uma alternativa de renascimento da esquerda, simplesmente definharam ao aceitar tal projeto posto. Podem assim, cair no isolamento completo, não serão reconhecidos como uma possibilidade de mudança por parte da população que almeja isso e também não serão aceitos pela parte mais centro direita. A estes, só restarão as migalhas do poder que cairá da mesa (caso o projeto vença o pleito).

É realmente triste ver a decadência deste projeto, ver que o povo mesmo, este de onde a esquerda deveria nascer e para o qual deveria construir, está fora da contabilidade dos marketeiros da política. As alianças primordiais do Lula são com o Pato da FIESP, o mesmo que foi acusado do golpe e é com este que a esquerda hegemônica vai caminhar. Quem não abraçar isso será taxado de bolsonarista, jogo da direita, sectário, e qualquer outra patifaria de argumento ad hominen possível de ser gralhado nas redes sociais organizadas para o cancelamento.

Lula e Boulos são quadros de momentos históricos únicos. Assim como Lula nasce politicamente do seio das lutas trabalhistas, potentes para mobilizar parte significativa do povo, Boulos nasce do seio das novas lutas contra a precarização, a luta pelo direito a cidade, habitação, mobilidade, para os mais pobres. As escolhas porém deste segundo parecem frear a potencia desta história, fica para trás a força popular que o emanou em nome de um projeto maior que é a unidade liberal. Aceita-se recuar na disputa do Executivo do Estado ou do Federal em nome de apoiar um projeto de poder que inclui aquelas forças que pactuam com os principais adversários de classe de sua base (especuladores imobiliários, grandes empresários, entre outros).

É trágico ver que a história busca ciclos e que a tática da esquerda segue cristalizada. O governo Lula e Alckmin representará a continuidade do governo liberal que a esquerda tanto diz combater, e este governo será assumido socialmente pela tinta vermelha desta mesma esquerda. O ônus deste governo para o povo recairá sobre a esquerda. Chega a ofender quando vemos Pinheirinho ser usado de palanque eleitoral em um projeto que tem a tiracolo elevar a vice as forças econômicas que, na condição de governo de São Paulo, produziram um massacre repleto de abusos policiais que chegou a ser denunciado na ONU. A operação em Pinheirinho tem todos os adornos historicamente construídos como método policial e miliciano. Nada neste fato difere da base material e simbólica que deu o poder ao Bolsonarismo. Portanto, nada neste palanque se torna alternativa concreta de mudança social para este povo.

A escolha de Boulos não foi revolucionária ou potente. Pôs no freio das possibilidades reais de produzir mudança e assumir o conforto eleitoral do cargo legislativo, onde pode manter-se por anos sendo eleito com seu nicho de votos. Tudo ocorre em nome desta contagem de votos e partilha eleitoral que não chega e não toca mais o anseio do povo.

Junto a isso, vemos uma campanha massiva de tentativa de convencimento dos jovens a tirar o título de eleitor e votar. Sim, pois votar passivamente se tornou o único papel político do povo que realmente importa para esta projeto. Vemos uma campanha que beira o assédio moral aos mais jovens, público que nasceu ali por volta de 2005 e 2006 e que começou a entender um pouco de seu lugar no País por volta de 2014, isso é, já na crise e terra arrasada dos pós megaeventos (copa e olimpíadas). É de um otimismo muito grande esperar que estes jovens que não enxergam mais representatividade em nada do que está posto, assumam o papel de protagonistas da vitória eleitoral desta estratégia. É capaz de muitos destes jovens ainda votarem em um Bolsonaro na vida e serem xingados pela máquina militante das esquerdas.

Partimos do pressuposto que por ser jovem ele deve votar na esquerda (é um cânone divino estar do lado certo da história). Esta mesma esquerda que ele não vê atuando em absolutamente nada além de pequenos nichos com discursos pré-prontos e que muitas das vezes beira um certo cinismo. Há de pensar: Estes jovens, assim como boa parte do povo enxerga com clareza que, em meio a pandemia, quando explodiu uma possibilidade real de Fora Bolsonaro devido o mesmo estar literalmente forçando a morte da população, as organizações de esquerda esfriaram quaisquer manifestações antes que tomasse vultos incontroláveis. Enxergam com clareza que o fascista de ontem virou o amigo e vice de hoje, que o roubo do MEC não gera uma manifestação organizada ou greve, e que interessou a estas forças progressistas que o Bolsonaro permanecesse presidente até a eleição.

Veja que, a base bolsonarista das igrejas neopetencostais que se tornaram máquinas de poder e lavagem de dinheiro (uma ofensa a fé do povo), suga dinheiro do sistema de educação do Brasil e isso não virou uma manifestação de massa no dia seguinte. A esquerda parece não ter coragem de assumir a corrupção política como pauta para si, uma pauta que capitaneia a indignação do povo não é trabalhada por nenhum grupo político organizado.

Me perdoem se usei a expressão -projeto de poder-, não cabe projeto no que está dado, o que temos é uma estratégia de troca de personagens no jogo político, projeto exigiria outra construção. A polarização reflete o nosso fracasso em qualquer tentativa de alternativa a tudo que está dado, aceitamos ou fomos entubados pelo jogo político onde o fim disso tudo pode ser trágico. A esquerda como conhecemos seguirá morta, morrerá vença quem vencer, mas talvez ela precise morrer para renascer. A estratégia Lulista de garantir-se na política do establishment e usar o Bolsonaro como escada eleitoral, minguando toda e qualquer força que seja autônoma ou possibilidade a isso tudo pode dar com os burros n’água, pois querendo ou não, mesmo que vença, não será simples garantir o engajamento popular para a manutenção do poder.

O que mais me incomoda nisso tudo não é o pragmatismo do jogo político eleitoral. O povo toparia o pragmatismo pelo pragmatismo, votar num nome como se este fosse o mais do mesmo, quantos não são eleitos assim? O que incomoda mesmo é o cinismo de pintar, o tempo todo, as artimanhas e movimentos das peças e do dinheiro envolvido nisso como um jogo do bem e do mal e como se os fins justificassem os meios de uma revolução lá na frente que nunca virá.

Aqueles que não aceitam a chantagem e o assédio moral eleitoral serão vistos como inimigos, e falas e textos como esse serão vendidos como mais incômodos do que um jantar com o Alckmin, cujo prato pagaria a cesta básica de famílias inteiras que estão passando fome nesse Brasil. E o desespero que começa a bater está justamente aí, os mapeamentos estão mostrando que ano a ano, a chantagem e o assédio funcionam cada vez menos e o povo se torna cada vez mais descrente das organizações coletivas que deveriam promover mudanças e engajamento de base e nas bases, mas são minadas ou aparelhadas por este jogo.


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