Águas que nos afetam

A região Sudeste do país está enfrentando neste verão mais uma derrota urbana com as enchentes. O problema é histórico, inicia-se em grande parte nos processos de implantação e estruturação de cidades que não pensaram de forma coerente seus cursos d’água. Metrópoles como as do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte ao optarem por um padrão urbanístico de favorecimento do automóvel invisibilizando seus rios criaram problemas de difícil solução.

O problema se torna pior a medida em que, tempo a tempo, pouca mudança neste pensamento se modifica. Escolhemos caminhar na contramão de milênios de história, onde a humanidade buscou e vivenciou seus cursos d’água como o bem mais precioso de suas organizações sociais e aglomerações em povoados e cidades. As águas tem valor sagrado, simbólico, afetivo, de saúde, valor paisagístico, contemplativo, podemos citar inúmeros valores que não cabem reduzidos a políticas econômicas simplistas e que nem todas as prosas e versos seriam capazes de definir tamanho afeto.

As águas que tanto nos faltam hoje na cidade do Rio de Janeiro, são as mesmas que nos afetam nas cheias, resultantes de falta de planejamento urbano cuidadoso com nossos recursos naturais. O Plano Nacional de Saneamento se tornou quase uma ilusão, uma tentativa que conseguiu pouquíssimo resultado em um universo onde as forças políticas permitem que a Nestlé tome posse das águas de São Lourenço. Enquanto as forças políticas em seus níveis estaduais e municipais pouco ou nada fazem para garantir o saneamento seja em seu tratamento de esgoto, a qualidade dos recursos hídricos, a proteção das matas ciliares, APAs e APARUs, entre outros, desastres como os ocorridos em Belo Horizonte e no Norte Fluminense do Estado do Rio de Janeiro se tornaram casos previsíveis, apenas esperando a próxima chuva para acontecer.

Precisamos retomar a relação da água com a vida, recuperar as margens dos rios e córregos, tratar nosso esgoto e cuidar de nossos resíduos pluviais. Não há mistério em lidar com isso no campo da arquitetura e engenharia, apenas estamos presos na falta de vontade política para admitir que nem tudo pode ser decidido pelas forças dos mercados ou pensado como moeda de troca em uma relação de consumo. O principal valor da água não está na sua troca, mas no seu uso e no seu direito comum a todos.  Enfrentamos hoje erros urbanos de um passado recente na história da humanidade, mas ao mesmo tempo mantemos e fazemos novos erros nos momentos presentes e assim deixamos um legado triste para os que aqui virão. 


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