A saída tem que passar pelos pobres

Estamos diante dos piores momentos da pandemia. Em grande parte construído pelo desajuste e escolhas políticas erradas de Bolsonaro. Um ano de pandemia, perdemos muito tempo em disputas negacionistas e pouca ação concreta unificada. E sim, imensa parte disso tudo está na incapacidade do presidente atual se posicionar como se estivesse em uma guerra contra tudo contra todos, da ONU ao meu vizinho, qualquer um parece ser inimigo latente do Bolsonaro.

A saída bolsonarista, ao gritar a bravata de que a economia não pode parar, ao fechar possibilidades de seguridade social e ao tencionar que os mais pobres sigam trabalhando, aprofunda a crise da doença e perde o principal ativo para o país, seu povo que morre ou que sofre pelas perdas de familiares. Sua política lembra uma leitura contemporânea de eugenia, entrega a coletividade de braços abertos para a doença, e nós que tenhamos a sorte de não morrer.

Se o Lockdown era uma realidade necessária no início, hj se torna crucial. Porém há um embate material que devemos realmente considerar, o Lockdown não se resolverá por decreto ou lei, não sairá de cima para baixo sem campanhas de orientação e sem uma estrutura material de apoio.

Em meio a imensa crise humanitária, e sendo parte desta crise econômica, esta tem que estar na nossa pauta de solução também. 

Dizemos: temos de fechar bares e restaurantes! Mas não damos estrutura social para garantir aos mesmos a manutenção da vida de seus funcionários e donos.

Dizemos que não se deve abrir a escola antes da vacinação, mas não planejamos a inserção dos professores como prioritários para a vacinação. E não planejamos alternativas anticapitalistas de educação emancipadora capaz de contrapor os modelos “EAD” apresentados.

O país precisará construir um plano completo, não há dúvida, a pandemia irá perdurar por um bom tempo no Brasil. A crise econômica irá se expandir e isso depende de um projeto, que não será simples de agradar a todos como em tempos de vacas gordas. É imprescindível termos em mente, o Brasil de 2023 imerso na crise global e humanitária a construção das saídas precisam ser abertas o mais rápido possível ao debate popular para que sejamos capazes de construir para além do roteiro publicitário e midiático. 

As disputas de poder, de bastidores, conversas de eminencias pardas, não são tão prioritárias, o foco a meu ver é a materialidade de como produzir em meio ao caos a mudança que nos tire da queda livre em que estamos. 

Criar formas de amparo e sustentação dos pequenos e médios comerciantes via recursos públicos por exemplo pode ser um meio de girar a saída, assim como criar protocolos e orientações que facilitem o funcionamento destes (que podem atuar com entregas a domicílio por exemplo, entre outros). Por que não abrir linhas de crédito emergencial ou fomento para pequenos e médios negócios? 

Pra romper o aprofundamento da crise também precisaremos de novos pactos, como exemplo investir pesado no sistema de pesquisa e tecnologia. Investimento deste porte poderia nos inserir novamente no circuito de países que têm capital humano de qualidade para produção de saberes. 

Retomar investimento em softwares livres (uma luta que parecia perdida mas começa a dar sinais de querer voltar vide o caso do INRUPT), lutar por quebra de patentes em saúde e quaisquer itens imprescindíveis à vida humana na Terra. 

Tornar eficiente a gestão nacional de dados nacionais, repactuar a relação entre o sistema privado e o sistema público de saúde, é inaceitável passarmos o que estamos passando: leitos de UTI do sistema privado, por exemplo, não serem unificados ao do sistema público em meio a pandemia e diante de uma fila de doentes.

Se não tudo, ao menos a educação integral e a saúde deverão ser prioridade universal e pública, com olhar especial para os ciclos básicos e fundamentais do ensino e para a saúde preventiva. Esse é o investimento robusto que deixa um verdadeiro legado por séculos de gerações.

E o principal para o momento: Criar uma estrutura de seguridade social robusta capaz de implementar a renda mínima universal e uma aposentadoria que garanta dignidade. Lembrando que estes Programas, cujo conceito e necessidade de existir é considerado por pensadores de diversas vertentes políticas, dos progressistas até pensadores apreciados pela direita conservadora.

Assim, não bastará ao futuro, que o pacto seja com grandes empreiteiras criando uma massa de pleno emprego embasada na construção civil, ou com bancos em pró de crédito para criar uma massa consumidora. Por mais que este caminho possibilite massificar empregos e algum bem-estar social, não há saída que se sustente só por aí. Muito menos pactuar acordos de apoio e não violência com os poderes milicianos instaurados e que hoje dominam inúmeros territórios expulsando os sistemas do Estado de Direito deles e se constituindo como Estado paralelo.

Qualquer lugar que tenha recurso escasso, como o que esta crise do capital nos impõe, sabe que as escolhas políticas terão de ser muito bem ajustadas e acertadas e sabe que não dará para cobrir a todos. Resta a nós entender qual é a prioridade de cobertura. A meu ver, devemos pactuar com os mais pobres prioritariamente. Construir, não mais uma ascensão do bem estar baseada em consumo, mas sim baseada em capacidade de produção, saber técnico, conhecimento científico, entre outros. Os ricos irão chiar (não falo da classe média), mas é melhor que doa nestes um pouco para o bem de todos os que não tem fuga ou privilégio.

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texto aumentado a partir do postado originalmente em:

https://twitter.com/rodrigobertame/status/1368483615311601667


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