A pandemia e a cidade.

Em um mundo cada vez mais urbano e conectado, onde a conglomeração de pessoas se tornou um elemento comum de nossa sociabilidade, temos um desafio maior ainda diante de uma crise como a posta pelo coronavírus. Se em tempos pretéritos, o sanitarismo se constituiu como uma política de estado e de ação urbana que gerou inúmeras modificações concretas em diversas cidades, devemos refletir sobre o porquê de não mantermos hoje diversos programas de ações que engloba novamente a importância do sanitarismo como promotor de saúde para qualidade de vida, relacionado aos espaços que produzimos em nossas cidades.


Um grande equívoco que cometemos ao estudar os sanitaristas é observá-los apenas pelos impactos negativos e segregadores de suas ações urbanas. Esquecemos de averiguar os processos na totalidade dos fatos. As remoções compulsórias, campanhas de vacinação compulsórias, remodelação urbana além de seu efeito de segregação sócio-espacial teve o impacto, entre outros, de erradicação e tratamento de doenças que tanto afligiam o povo. Ao negligenciar parte do impacto técnico e científico das escolhas que dirigiam a política de sanear, nós urbanistas, nos colocamos fora desta pauta. Hoje pouco discutimos o papel do arquiteto junto ao sanitarista em um projeto de intervenção na cidade.. Nosso ofício nos permite ser um importante elemento articulador entre as soluções de controle epidêmico e de manutenção da vivência urbana das cidades.


Estamos em um estado que nos exige o cuidado coletivo, primeiro ponto é este: entender nossa tarefa cidadã dentro do sentido de um contingenciamento. Somos potenciais vetores de contaminação de nós mesmos. A dispersão do vetor associado ao espraiamento urbano não é mais uma resposta possível e viável dentro das metrópoles.

Hoje, caminhamos por logísticas melhores. Traçamos planos de contingenciamento sazonais e que sejam mais efetivos para a redução do efeito multidão;aglomeração.  Porém, somado a isso, devemos fortalecer as ações clínicas e assistenciais associadas ao território, de forma que as mesmas sejam garantidas espacialmente dentro de raios aceitáveis de cobertura, vale lembrar que, de nada adianta evitar aglomeração em transporte urbano e em grandes centros se não evitarmos a mesma aglomeração em locais mais frágeis como os postos de saúde e atendimento. Para tal, o primeiro cuidado do médico de família associado ao Agente de Controle de Endemias deve funcionar bem. Precisamos fortalecer nossa rede de pesquisadores de forma que possamos apresentar a sociedade um profundo conhecimento científico sobre o território, compreender as possíveis logísticas de deslocamento e de pouso de tratamento para casos mais graves, além de sistematizar o uso do espaço urbano de forma a evitar aglomerar mas não matar a sociabilidade e espírito de vivência dos citadinos.

A cidade como conhecemos e vivemos nos põe em risco, e isso também é parte da vivência, por isso, se não tivermos em mãos este planejamento de defesa, corremos o risco de nos salvaguardar de uma doença alimentando outras. Uma ode ao espaço e sociabilidade aconteceu na Itália e foi amplamente “viralizado”. Diante do caos tomado e da quarentena, cidadãos vão às suas varandas tocar canções, a varanda, que os distancia e protege se configurou em espaços de grande vitalidade quando se reforça o espírito comum diante da luta em que estão. A pandemia nos revelou mais uma vez o sentido ubuntu, o entendimento pleno de que só sou porque todos somos.


Nos pôr em risco não é culpa da cidade, é parte importante da constituição dela. De forma que, nosso trabalho não se trata construir espaços que matem as relações sociais ou segregam-na em troca de um desejo de segurança a qualquer custo. O que nos cabe é pensar, neste momento, que por um lapso de tempo precisamos nos impedir de ser vetores de nossa própria destruição. 

Um equilíbrio interessante pode estar em uma fala de LeGoff quando citou o espaço de São Francisco de Assis como um lugar de respiração: alternância entre cidade e solidão onde sua geografia de vida é uma rede de cidades e a solitária estrada entre elas pela qual se vagava. Este pode ser um modelo interessante para pensarmos ações dentro de um padrão de contingenciamento. Saindo do espaço e retomando a perna economia, também podemos fazer um pouco de analogia com o pauperismo de São Francisco, para quem o desapego e a partilha são elemento fundamental de estruturação social. Fortalecemos assim o que nos é comum em economia e o trabalho do arquiteto, o cuidado com o Eco (óikos – casa). Não a casa privada como pensamos atualmente, mas um sentido de casa onde casa e mundo são quase uma coisa só.


Assim, vamos respirar, parar fisicamente em nossa solidão que evita aglomerações mas fortalecer o “vagar” através das redes de conhecimento onde a velocidade de trocas pode nos proporcionar um melhor trabalho de busca da cura, esse é o material que nos acomoda hoje. Por o mundo em quarentena não significa propriamente um estado de exceção, mas um caminho de tratamento contra um inimigo que corre no vento contra nós. Esse é o olhar material que vejo sobre os fatos.

Porém um problema que se abre é o efeito da quebra da inércia. Talvez o maior temor de muitos sistemas diante de uma economia como a conhecemos é que, se sua roda para, muita coisa desanda. Neste sentido para tal precisamos reforçar o sentimento (ainda mantendo a analogia franciscana, o que não significa que devamos reduzir o mundo ao franciscanismo) precisamos pensar o pauperismo e seu desapego e sua partilha. Precisaremos que compromissos políticos emergenciais maiores sejam assumidos pelo poder público.Garantir um plano de sustentabilidade da vida cotidiana mediante a parada do mundo é fundamental. Um sistema de saúde universal fortalecido, boas ferramentas para que o sistema de previdência possa garantir que não tenhamos perdas de renda, o fortalecimento da seguridade social, com instrumentos que permitam uma igual inclusão de atendimento aos mais precarizados que hoje vivem de bicos e freelancer. E isso precisa ser solucionado rápido. Isenção e criação de subsídios governamentais para impedir que a população fique ao relento.

Talvez o Brasil tenha dado uma pequena sorte diante do COVID-19, estamos no verão. Temos um tempo curto, mas temos tempo de assumir e sistematizar com seriedade a gestão deste problema. Inúmeros eventos de grande porte de multidão e aglomeração já foram cancelados ou adiados, este é um caminho ponderado e necessário diante da realidade que nos vem à frente.

O processo de controle de aglomerações e movimento de pessoas por si só não terá eficiência se não houver um reforço forte do sistema de saúde no âmbito de diagnóstico e não houver um esforço do planejamento econômico e social para garantir o básico de sustentabilidade a sua população. Resumindo, precisamos ter uma política de bem estar social reforçada e que atue de forma emergencial, para garantir o mínimo de dignidade aos cidadãos diante do impacto econômico que um processo deste causa no país. Este é o dilema: como lidar por exemplo com a massa de trabalhadores que depende da continuidade diária de seu trabalho para garantir seu ganha pão? Citamos aqui motoristas de aplicativos, entregadores de alimentos, pedreiros, entre outros, que neste momento está fora de qualquer guarda-chuva de seguridade social. 

Infelizmente investimos muito pouco em controle de epidemias no mundo. Temos o monitoramento constante da OMS mas não possuímos um sistema global de saúde que consiga agregar com mais eficiência o cuidado e ações estratégicas a toda população. Falamos aqui do sentido amplo de saúde como um bem comum tendo como diretriz principal, o direito universal à saúde. Tal sistema universal nos permitiria fortalecer não só o atendimento populacional, o controle estratégico de endemias, mas também a logística e a rede de desenvolvimento de pesquisas de forma que consigamos acelerar os processos de descobertas e distribuição de medicamentos e tratamentos.

101 anos após a gripe espanhola, lembramos ao leitor que não devemos cometer os mesmos erros. A negação ou eufemismo sobre a realidade pode se tornar nosso maior inimigo diante do esforço coletivo mundial para conter o vírus. Tracemos pelo real, com planejamento, trabalho árduo, organizado em redes de forma coletiva, vamos garantindo o tempo hábil para que os campos da pesquisa científica mundial alcancem algum bom resultado em breve. Enquanto isso, vamos fazer nossa pausa, mas sem perder o ensinamento que os italianos nos passaram de forma viral nas redes, nada nos impede de cantar em nossas janelas e varandas.




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