A greve dos entregadores aponta novos caminhos para as lutas trabalhistas em 2020

elaborado por Rodrigo Bertamé

Já tem algum tempo em que caminhamos pelos debates sobre como as formas de lutas sociais que permearam nossas gerações entre os anos 60 aos anos 80 não respondem bem aos anseios e as lutas emergentes que acontecem em 2020. No mundo tem sido comum demarcarmos o ciclo de crise de 2008 que culmina em manifestações globais anticapitalistas a partir desta data (tendo seu auge no Brasil em 2013) como uma virada significativa desta chave.

Antes de ampliar o debate me proponho a enfatizar uma parte da visão de mundo que comungo. Entendo que é parte do processo dialético de pensar as lutas compreender a construção materialista e a construção simbólica que complementam a realidade onde as mesmas estão inseridas. Não compreendo portanto que a concepção da sociedade seja apenas consequência das relações estruturais que a compõem, vejo mais como um complexo de relações onde inclusive o inesperado pode atuar e muitas das vezes atua.  Outro elemento importante que trago para referenciar é termos em mente o entrelaçamento de tempo e espaço e para este trarei um recorte de algo citado por Castoriadis, para quem o tempo pode ser visto como tempo de demarcação (o tempo medido e cronológico) e o tempo de singnificação. Um solstício por exemplo é tanto uma data em um calendário quanto um conjunto de símbolos, cultos, construções de uma determinada sociedade.

Tendo isso em mente retomemos.

Quero demarcar 3 grandes tempos de significação na história recente do Brasil, os anos 60, os anos 80/90 e a virada do milênio.

Os anos 60 vinham embebidos em lutas as mais diversas, o mundo caminhava polarizado após as grandes guerras, as revoluções soviéticas e maoístas traziam de terras distantes referências de lutas que se encamparam pela América Latina. A ditadura do proletariado, as lutas da internacional socialista dentre outras se tornariam rapidamente a pauta e inspiração de grande parte dos militantes mais progressistas da sociedade ao mesmo tempo em que ditaduras são implementadas para manter o poder já previamente constituído onde Geisel e Pinochet referenciavam a disputa da polarização.

O ano de 68 se torna paradigmático ao por na pauta a ruptura destas estruturas da polarização capitalismo-socialismo. O mundo novo que 68 apresentava não vinha pela saída das revoluções socialistas e também não aceitava a manutenção dos poderes constituídos como os que dominavam o Brasil. 68 trazia a liberdade individual como pauta e colocava no modelo que uma saída coletiva também poderia prever e considerar a singularidade, as massas não precisariam ser iguais pois todos somos diferentes. Entram no campo as lutas identitárias, as lutas pacifistas, a mudança por dentro, outras formas de ser de esquerda e de ser progressista.  No espaço brasileiro, há uma mudança também pelo viés da esquerda. Partidos e pensamentos mais vanguardistas que buscavam saídas pela luta armada, pelas revoluções proletárias e pautas similares começam a perder espaço no discurso hegemônico e a saída pelo mundo novo passa por um outro ciclo: a construção dos movimentos de bases nos tecidos sociais. entre eles podemos destacar, as ações progressistas nas igrejas, os movimentos de associações de moradores e os movimentos trabalhistas com uma nova proposta de lutas sindicais. O sindicalismo que se solidifica nos anos 80 é parte deste grande movimento de significações das lutas que vão abrir um tempo novo. Ali podemos dizer que finda o ciclo das ditaduras militares e se inicia um ciclo político constituído a partir deste novo tecido social que já espelha alguns pequenos resultados das lutas culturais de 68 enquanto se reforça a luta por um viés trabalhista que enfrenta a recessão econômica pós ditadura. Os anos áureos do sindicalismo como conhecemos, se consolida por esta época ainda embebido nas estruturas trabalhistas que vinham desde Getúlio Vargas operando.

Em 90 entramos em outro ciclo econômico: o avanço global dos sistemas informacionais, o modelo de telecomunicações que no Brasil é demarcado pela privatização do sistema, e com ela caminha a terceirização e formas de flexibilização do trabalho. A CLT continua a existir porém começa a se transformar em um rudimento, podemos dizer que por esta data conseguimos enxergar que a CLT terá prazo para ser extinta. Ainda assim, os modelos das lutas trabalhistas ainda postulam força a ponto de protagonizar no ano 2000 a presidência da nação. As mudanças estruturais que o universo das redes informacionais abriu esteve em disputa: sistemas de pirataria P2P, redes de comunicação com o mundo, redes de resistência, foram paulatinamente abalando sistemas já constituídos como a indústria fonográfica e a comunicação via rádio e TV.

Ao mesmo tempo, outras estruturas de controle se consolidaram. O mundo do algoritmo que explode em sistemas de captura de nossos gostos e afinidades e eleva a outra esfera o modelo de controle social nos impele a constituir novos instrumentos de luta. Em um recorte muito curto de tempo, a internet que caminhava por possibilidades libertárias se reduz ao cercado controlado de grandes corporações, muitas das vezes traduzidas na sigla GAFAM (Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft).

O sistema se torna extremamente fluido. O trabalhador, agora sem nenhuma legislação que garanta a sua proteção e sem um patrão de rosto definido é posto diante do desafio de buscar novas formas de organização. A greve geral proposta pelo movimento nacional de entregadores de aplicativos abre esta vertente e se torna paradigmática, quiçá um aprendizado para nossas lutas a dualidade patrão e empregado não tem a mesma conformação de antes. Já tem alguns anos que estamos falando de uberização da vida, onde reduzimos o modelo a precarização, como se a saída a partir do retorno ao tempo anterior ao Uber fosse possível.

A uberização da vida tenderá a nos levar a uberização das lutas, dizer isso exigirá de nós assumir o conceito para além da precarização que ele ocasiona. Precisamos entender a lógica dos processos, a dialética e as contradições que movimentam este sistema, e como funciona a engrenagem para que possamos construir uma saída dele.  Talvez os youtubers, kpop fans, influencers dos mais diversos tenham encontrado as táticas para que se opere as saídas, e talvez estas saídas dependem de formas de organização que já não dialogam tão bem com entidades organizadas de forma mais tradicional.

Entender como lutar no tempo, espaço e condições de possibilidades que se apresentam a nossa frente em 2020. O cyber espaço das décadas de 90 e início dos anos 2000 já não existem mais, tal qual o muro de Berlim, são novos muros que surgiram. Este espaço mudou e com ele mudaram as formas de lutar. A busca ao retorno impossível foi provavelmente um dos erros da Napster nos anos 2000 e um dos erros dos táxis nos anos 2010. As novas lutas precisarão caminhar pelas novas ferramentas e pelas novas espacialidades constituídas. 

De forma orgânica e individual muitos motoristas de aplicativos (não é o caso dos entregadores) usavam táticas de subversão. Aglomerar-se em um determinado local fazendo o sistema apontar outro lado como dinâmico pela escassez, usar sistemas pirada de georreferenciamento falso, e a própria rede de diálogo pelos grupos e whatsapp. 

Talvez a próxima etapa da organização passe por estruturas-rede, onde a centralidade do poder não estará na voz do falante, mas na capacidade das capturas dos dados produzidos na mesma onde as informações caminham pelos fluxos.

As lutas ocorrem no tempo e no espaço, e esta nova história e geografia que se traça está dado em um campo onde tempo e espaço se tornaram extremamente elásticos, podendo-se esticar e estar simultaneamente em muitos territórios e expressões. A uberização da vida é este mundo onde a exploração do trabalho se dá pelo acúmulo da credibilidade em uma marca X, onde o explorador são códigos de operação de um sistema e onde as formas de exploração e confiabilidade constroem a rede de credibilidade de forma global.

Há muito  em comum entre os Kpopers fans que esvaziaram um comício do Trump e os entregadores de aplicativos que vão parar no Brasil neste dia 1 de julho, ambos conseguiram encontrar um caminho, uma brecha através das redes, que potencializa nossa capacidade de organização e manifestação. Como organizar uma cyber-greve a partir dos trabalhadores precarizados? É o que os entregadores de aplicativos está produzindo. Com eles podemos aprender muito e eclodir manifestações que ocupem tanto os sólidos espaços geológicos e construídos da terra, quanto os espaços informacionais que nos exploram. Estamos no início destas lutas. 

 

 


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