7 de abril dia da Saúde – Cidades Segregadas: tivemos copa e não temos saneamento

Teleférico Morro da Providência – Rio de Janeiro RJ (hoje está parado).

Hoje, dia 7 de abril comemora-se o dia mundial da saúde. Enfrentamos neste dia nosso maior desafio em muitos séculos, o combate a um vírus super transmissível e que é fatal. Em meio a crise global, outra nacional nos assola. O distanciamento social que temos que manter mediante isolamento é transpassado pelo distanciamento econômico que a segregação urbana nos permitiu.


Se a cerca de um século atrás, a gripe espanhola nos afligiu de forma semelhante, criando laços e reformulando as pautas de construção de cidades, o Brasil pós-pandemia poderá sofrer pelo mesmo caminho. Porém, antes de chegarmos no Brasil pós-pandêmico temos que chegar no Brasil vivo hoje dentro da pandemia é resultante não apenas dos processos de inicio do século passado de segregação, mas das políticas contínuas desta segregação.

Podemos enquanto urbanistas arquitetos comemorar algumas vitórias recentes (não tão recente mais) como o Ministério das Cidades e o Estatuto das Cidades, ou a lei de Assistência Técnica de Habitação de Interesse Social, mas devemos pesar que cidades e que espaços são estes que foram produzidos a partir deste ponto.

O Brasil Olímpico e da Copa das Copas retrata modus operandi dos processos de projeto e implementação de urban design mundo a fora. Operam deixando pautas progressistas e democráticas entrincheiradas em certos espaços de respiro, certas quantidades de editais e coisas do gênero enquanto pautas hegemônicas do tradicional veio aberto seguem pelos sistemas de sempre. Se um MCMV Entidades nos obriga a um apuro e afinco gasto de energia com regras onde entidades tem que batalhar para conseguir um mínimo, um MCMV da Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, MRV Engenharia conseguiam e conseguem firmes e fortes contratos massivos para fazer barragens, rodovias, e MCMV em verdadeiras não cidades sem que pareçam obrigados a apresentar a sociedade os resultados concretos disso. A cara do Brasil faz parecer que é mais fácil conseguir dinheiro no BNDES do que empréstimo no cartão C&A.

Por exemplo, coube a Odebrecht, OAS e Delta a construção do teleférico no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro olímpico. Hoje o dia mundial da Saúde anunciou dois falecidos por covid-19 no Complexo, que tem seu teleférico parado e continua sem saneamento. O Alemão, que fica no Rio de Janeiro, cidade do Porto Maravilha, que assim como em Porto Madeiro em Buenos Aires ostenta um ícone arquitetônico como marco capital deste modelo de cidade.

MCMV em Mata do Cacau – ES.

Podemos e devemos citar outros casos recentes como o Cais Estelita Demolido e reprogramado pelo Consórcio Novo Recife, formado por Ara Empreendimentos, GL Empreendimentos, Moura Dubeux Eng. e Queiroz Galvão, ou também Belo Monte, talvez a maior obra deste setor político-construtivo envolvendo a robustez de grandes construtoras. 

Fazer cidades, no seu sentido material é um grande negócio e estruturante de país.

O Brasil vê na construção civil a capacidade de movimentar uma economia de massa graças a canteiros de obras onde a segregação social se mantém mas permite o mínimo de capital de giro na sociedade (pense no salário do servente, do serralheiro, do carpinteiro, etc) e de movimentar grandes estruturas econômicas que mantém constantemente ativas pelo lobby. Somado a isso constroem cidades a partir de plugs de tecnologias e produtos que caem de forma invertida no território. Fica a questão, foi o Complexo do Alemão que pediu um teleférico ou foi o teleférico que precisaria ser instalado em algum lugar para sair bonito na foto do Rio Olímpico? E o que sobra aos ativistas, se não as migalhas? 

São Migalhas como aplaudir o espaço identitário que restou ao Porto Maravilha de retratar o índio em grafite enquanto Belo Monte se transformou em um operativo financeiro de quem verdadeiramente construiu o Brasil. São migalhas como disputar os pouquíssimos editais de entidades que transformam-se em verdadeiras máquinas de captura de movimentos e de divisão entre pobres enquanto os mesmos morrem de fome. Aos pobres a migalha e a fome, e agora a doença. 

Parece bem propício ao Brasil pós-pandêmico operar economicamente o setor da construção civil com o discurso de uma nova forma de pensar as cidades, pois como já dito, a construção civil move massas da economia. Esta nova forma por sua vez, não poderá vir com os vícios das formas velhas, venham de que lado vierem, assim como o discurso participativo de construção de cidades não terão efetividade se vierem viciados em instrumentos já previamente capturados.

O enfrentamento da cidade segregada passará pelas encruzilhadas da sociedade como um todo, precisará considerar e consolidar as vozes mais diversas e não apenas as organizadas de que forma estejam. O primeiro passo para enfrentar a situação é admitir que construímos cidades segregadas, e que mesmo alguns poderes que se ventem como progressistas construíram cidades segregadas. A segregação espacial dos pobres é o paradigma de manutenção do sistema e destas formas de cidades.

A partir deste ponto, precisamos demolir da pauta o sistema lobista de construção de cidades, buscar melhores relações de usos de seus espaços, produzir educação de cidadania e integração de relações e redes de sociabilidade. O trabalho na escala orgânica da vizinhança é mais que narrativa, ele ocorre no dia a dia, cade a nós dar ouvidos a este trabalho, explodir para fora de nossas bolhas, partidárias, aparelhos e ações grupescas ou categorizantes e ouvir do outro cidadão comum.

Outro ponto, é importante emancipar o cidadão, seja pela saúde,  pelo conhecimento, pelo direito à cidade entre outros e deixemos que o cidadão construa seus caminhos, inclusive de organização da vida e de sua espacialidade. Primeiro precisamos universalizar e emancipar o saber e a saúde, para só depois começarmos a ver como as formas de organização e sociabilidade funcionam, Provavelmente nenhuma associação de moradores, grupo de minoria, coletivo cultural, partido político vai ter mais velocidade e capilaridade que o discurso de uma vizinha faladeira.

O Brasil de hoje é em muito a cara disso: Por um lado movimentos organizados aplaudem o grafite como resistência enquanto as Odebrechts da vida construíam Belo Monte e Portos Maravilhas de braços dados com quem quer que seja.Por outro lado o fascismo foi capturando a indignação dos mais pobres que não conseguiam lavar as mãos com teleférico e nem se alimentar com tinta de grafite. 

As maiores derrotas na concepção de cidades ficam estampadas em algumas pautas. Quando perguntamos que cidade queremos, ou quando levantamos bandeiras do tipo: A cidade é para as pessoas. Fora o pior de todos, as soluções mágicas tipo Rasputin: teleféricos e VLTs que saem da cartola. Estamos assumindo o quão distante ficamos desse debate e da construção emancipatória das cidades e o como ainda estamos presos na visão de mundo de que há um modelo ideal de cidade a ser alcançado. As cidades que traçamos estão sempre o campo do Amanhã, quase aptas a serem artefatos do Museu do Calatrava. Não estamos na caverna de Platão, estamos na cidade real e ela é segregada, abandonada e usurpada por inúmeras esferas de poder, muitas das vezes com nossa ajuda inocente ou não.

Onde está a saúde coletiva nestas cidades construídas? 
É exatamente isso, esquecemos.



Porto Madero – Buenos Aires – Grafite retrata luta identitária feminista e ponte da mulher (obra de Calatrava).
Porto Maravilha – Rio de Janeiro – Grafite retrata povos originários e minorias étnicas, no Porto encontra-se o Museu do Amanhã obra de Calatrava.

Novo Recife – Recife – Proposta para uso do espaço do Cais Estelita 


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